
Decreto de 2021 garantiu monopólio de crédito consignado a banco que realizou repasses milionários à empresa de consultoria de ACM Neto.
A gestão do prefeito Bruno Reis (União Brasil) em Salvador é alvo de questionamentos após a revelação de que a Prefeitura garantiu exclusividade ao Banco Master para a oferta de crédito consignado aos servidores municipais. A medida, oficializada via decreto em 2021, ocorre em meio a revelações de que o ex-prefeito e atual liderança do partido, ACM Neto, recebeu cerca de R$ 3,77 milhões de empresas ligadas ao grupo financeiro.
Repasses e Consultoria
De acordo com dados do Coaf divulgados pelo jornal O Globo, os pagamentos à A&M Consultoria, empresa pertencente a ACM Neto, ocorreram entre junho de 2023 e maio de 2024. Ao todo, foram 52 transferências realizadas pelo Banco Master e pela gestora Reag, representando 60% do faturamento da consultoria no período.
ACM Neto defende a legalidade das transações, afirmando que os serviços foram prestados quando ele já não ocupava cargo público. Segundo nota de sua assessoria, o trabalho consistia em análises da “agenda político-econômica nacional”.
O Modelo “Credcesta” e a Exclusividade
O núcleo da controvérsia reside na criação de uma “linha de crédito rotativo” para os servidores, modalidade que não existe na legislação federal de consignados. Esse modelo, operado pelo Credcesta, impõe juros altos e multas, sendo classificado por especialistas como “crédito predatório”.
O negócio teve origem na privatização da rede Cesta do Povo, em 2018, durante o governo de Rui Costa (PT), e se expandiu para a capital na gestão do União Brasil. O empresário Augusto Lima, figura central na transação, possui ligações históricas tanto com alas do PT quanto com o grupo político de ACM Neto, evidenciando uma articulação que atravessa campos ideológicos na Bahia.
De Salvador para o Plano Federal
A rede de influências do grupo Master também alcançou o cenário nacional. João Roma (PL), ex-chefe de gabinete de ACM Neto e ex-ministro da Cidadania no governo Bolsonaro, é apontado como peça-chave na abertura das portas do INSS para os produtos do banco.
A expansão foi meteórica: o volume de contratos do Credcesta no INSS saltou de 100 mil em 2022 para 2,75 milhões em 2024. No entanto, em 2025, o órgão não renovou o acordo após auditorias apontarem suspeitas de fraude em 75% dos contratos.