
A história contada pela ótica eurocêntrica nos vendeu o 13 de maio de 1888 como um ponto final, o encerramento heroico de um ciclo de horrores. Mas, para quem sente o peso da ancestralidade na pele, o 13 de maio é, na verdade, uma reticência.
É o marco de uma liberdade incompleta, forjada no silêncio do Estado e no abandono planejado de milhões de seres humanos.
Assinar a Lei Áurea sem garantir acesso à terra, à educação ou ao trabalho digno não foi um ato de humanidade plena, mas uma estratégia de Estado. O pós-abolição brasileiro foi o palco de uma exclusão sistemática.
Enquanto o país abria as portas para o imigrante europeu, com subsídios e promessas de futuro, o povo preto recém-“liberto” era empurrado para as margens, para os morros e para a criminalização de seus corpos e de sua cultura.
Falar sobre o pós-abolição é falar sobre a extraordinária capacidade de sobrevivência. É o período em que a resistência se transmuta: o quilombo deixa de ser apenas um refúgio geográfico para se tornar um estado de espírito e uma forma de organização social. É o nascimento das favelas, das escolas de samba e dos terreiros, que sustentaram a alma de um povo que o país tentava apagar.
A “liberdade” sem justiça social transformou o ex-escravizado em um cidadão de segunda classe, mas não conseguiu impedir o aquilombamento. A conexão entre 1888 e os dias atuais está na luta por territórios, pelo direito à cidade e pela valorização de saberes que nunca precisaram de diploma para existir, mas que sempre foram a base da nossa economia e espiritualidade.
Hoje, é de fato um dia de celebração?
Para mim, não. Para mim, hoje é dia de denúncia e de memória. É o momento de perguntar: quem realmente assinou a nossa liberdade? Foram as canetas de ouro ou as revoltas nas senzalas, as fugas em massa e a pressão incansável dos movimentos abolicionistas negros?
A verdadeira abolição ainda é um projeto em construção. Ela se faz no presente, toda vez que ocupamos espaços de poder, preservamos uma erva medicinal, protegemos o território e reescrevemos nossa própria história sob a luz da nossa verdade, e não da conveniência alheia.
Giselle da Hora
Idealizadora e presidente do Sementes de Baobá
Secretária-geral do COESO
Omo Orisá Osún e Ekedji de Xangô
Caloura do BI em Humanidades da UFSB