Quando o absurdo vira rotina: a psicologia da normalização na política brasileira
José Cássio Varjão
Dentro do período republicano brasileiro, mais especificamente a partir de 1950 — marco inicial da pesquisa que deu origem ao livro Eleições Históricas – Do Voto à História —, as disputas pela Presidência da República eram protagonizadas, em regra, por atores políticos cuja trajetória pública, experiência administrativa (todos foram governadores de estado, exceto FHC) e reputação ocupavam lugar central no debate eleitoral. As campanhas eram travadas muito mais em torno de currículos, projetos e biografias do que de denúncias criminais ou controvérsias judiciais.
Fazendo um recorte temporal ainda mais específico, das primeiras eleições presidenciais após a redemocratização até o início da década de 2010, nomes como Fernando Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Alckmin, José Serra e Aécio Neves representavam diferentes correntes políticas, mas disputavam eleições dentro de parâmetros institucionais relativamente estáveis. A ascensão da extrema direita, que sequestrou essa direita tradicional, alterou significativamente esse cenário, deslocando o eixo do debate público para uma política fortemente marcada pela polarização, pelo confronto permanente e pela espetacularização dos conflitos.
As sucessivas polêmicas envolvendo um ex-deputado do chamado “baixo clero”, conhecido por declarações controversas e pela defesa pública de um reconhecido torturador do regime militar, passaram a ser frequentemente relativizadas dentro de uma narrativa maniqueísta que divide a política entre o bem e o mal. Esse processo ilustra um fenômeno estudado pela psicologia social e pela sociologia, conhecido como normalização do desvio (normalization of deviance), conceito desenvolvido pela socióloga norte-americana Diane Vaughan em 1996, também descrito como habituação ao anormal.
Esse fenômeno ocorre quando uma sociedade é continuamente exposta a comportamentos, discursos ou acontecimentos que, em circunstâncias normais e esporádicas, despertariam indignação, repulsa ou forte reação coletiva. A repetição constante desses estímulos reduz gradualmente a sensibilidade moral da população. Em determinados momentos da pandemia de Covid-19, por exemplo, o elevado número de mortes passou a ser incorporado ao cotidiano de forma quase resignada, mesmo quando a tragédia atingia as próprias famílias diretamente.
Com o passar do tempo, aquilo que antes parecia extraordinário passa a ser percebido como parte da rotina. Escândalos de corrupção, episódios de violência verbal contra jornalistas, manifestações preconceituosas dirigidas a mulheres, negros, nordestinos e pessoas LGBTQIA+, campanhas sistemáticas de desinformação e ataques recorrentes às instituições democráticas — como o Tribunal Superior Eleitoral, o Supremo Tribunal Federal e o sistema eletrônico de votação — deixam de produzir o impacto inicial e passam a ser encarados com indiferença ou resignação. Surge, assim, uma forma de dessensibilização moral que enfraquece a capacidade crítica da sociedade e reduz sua disposição para reagir a abusos, permitindo que o inaceitável seja gradualmente incorporado como parte da normalidade política.
Essa distorção cognitiva é potencializada por um elemento relativamente novo na esfera pública: os algoritmos das plataformas digitais. Muito mais do que ferramentas tecnológicas, eles se tornaram mediadores invisíveis da atenção coletiva, privilegiando conteúdos capazes de gerar maior engajamento emocional. Na prática, indignação, conflito e escândalo passaram a funcionar como ativos altamente rentáveis na economia da atenção.
No ambiente político, esse mecanismo transforma denúncias, investigações, declarações polêmicas e disputas judiciais em produtos de consumo instantâneo, difundidos em vídeos curtos, cortes e postagens virais. Casos envolvendo familiares do ex-presidente Jair Bolsonaro, por exemplo, frequentemente aparecem nesse fluxo de informação, sendo apresentados, conforme o público que os consome, ora como evidência de práticas ilícitas sob investigação, ora como demonstração de perseguição política. Em ambos os casos, o debate tende a ser absorvido pelas bolhas ideológicas, que reforçam convicções prévias, a ignorância confiante, em vez de promover reflexão crítica.
Ao privilegiar o conflito permanente em detrimento da contextualização dos fatos, os algoritmos reduzem o peso institucional das informações, habituam a sociedade ao bombardeio contínuo de escândalos e transformam a exceção em rotina. O absurdo deixa de surpreender e passa a integrar o cotidiano político.
Nesse contexto, a Convenção Nacional do PL, marcada para o próximo dia 25 de julho de 2026, ocorre em um ambiente político singular. Independentemente das preferências eleitorais, chama atenção o fato de o principal nome do partido chegar a esse momento sem coligações partidárias, sem o nome do vice presidente, com múltiplas denúncias de corrupção e controvérsias públicas, está cercado de indefinições políticas relevantes. A questão que permanece é menos sobre um candidato específico e mais sobre a capacidade da sociedade brasileira de distinguir o excepcional do rotineiro. Afinal, quando o extraordinário deixa de causar espanto, talvez o maior problema já não seja o escândalo em si, mas a naturalidade com que passamos a conviver com ele. Será que parte da população brasileira terá pela frente mais uma escolha difícil?
José Cássio Varjão
Cientista Político
Autor de Eleições Históricas – Do Voto à História (disponível para aquisição no Sindicato dos Bancários de Itabuna.