FANTÁSTICO MOSTRA COMO INVESTIGAÇÃO NA BAHIA CHEGOU A CABO DO EXÉRCITO SUSPEITO DE ABASTECER FACÇÕES

Uma operação contra o tráfico de drogas em Itapuã levou as forças de segurança da Bahia até uma suspeita muito mais grave: munições de fuzil, granadas e armas estariam saindo de dentro do 6º Batalhão de Polícia do Exército, em Salvador, para abastecer organizações criminosas. A investigação da Polícia Civil e do Ministério Público da Bahia ganhou destaque nacional neste domingo (13), em reportagem do Fantástico.
O fio começou em abril, quando quatro homens foram presos em uma casa usada para armazenar e embalar drogas em grande quantidade. Com autorização judicial, os investigadores extraíram os dados dos celulares apreendidos. Em um deles, pertencente a Gabriel Reis Oliveira, apontado pela polícia como responsável pela compra e revenda de armas e drogas para diferentes grupos criminosos, apareceu um fornecedor identificado apenas por um emoji de extraterrestre.
O disfarce caiu com o cruzamento de informações. Nas conversas, o contato negociava preço, quantidade e data de entrega de munições dos calibres 5,56 e 7,62, usadas em fuzis, além de granadas. Para receber pagamentos, porém, repassava CPF e chave Pix reais. A Polícia Civil chegou então ao cabo Deivison dos Santos Ferreira, lotado no 6º Batalhão de Polícia do Exército.
Segundo os investigadores, somente para o grupo analisado o militar teria vendido cerca de mil munições de fuzil. Os áudios revelados pelo Fantástico registram ainda negociações de granadas, armas e até a oferta para que o comprador testasse o armamento. Em outra conversa, há referência a um fuzil G3 com a numeração raspada e à possibilidade de gravar uma identificação falsa.
O trabalho desembocou na Operação Reino Oculto, conduzida pelo Departamento Especializado de Investigações Criminais da Polícia Civil, com apoio do Gaeco, do Ministério Público, da inteligência da Secretaria da Segurança Pública, de outros departamentos da Polícia Civil e do Departamento de Polícia Técnica. Mais de 250 policiais participaram da ofensiva, que resultou em 33 prisões na Bahia, em Sergipe e em São Paulo. Segundo a investigação, o grupo movimentou mais de R$ 4 milhões com tráfico de drogas e armas e lavagem de dinheiro.
Também foram apreendidos drogas, armas, munições, celulares, veículos e mais de R$ 83 mil em dinheiro.
Agora, os investigadores tentam esclarecer como munições e granadas deixavam o controle militar. Uma das hipóteses é que o material fosse retirado durante treinamentos. O que sobrava dos exercícios deveria retornar ao paiol, mas registros podem ter sido alterados para esconder os desvios. Em um dos áudios, o cabo menciona um treinamento em Paulo Afonso e fala na possibilidade de obter novo material depois da atividade.
Deivison já estava preso preventivamente por determinação da Justiça Militar desde agosto, numa investigação sobre o desaparecimento de coletes balísticos do batalhão. Um deles foi recuperado pela Polícia Civil. O Exército informou ao Fantástico que o militar seguirá preso e à disposição da Justiça. A defesa nega as acusações e afirma que trabalha para revogar as prisões.
Polícia Civil e Ministério Público continuam apurando se outras pessoas participaram dos desvios e se havia outros envolvidos no fornecimento de armas, munições e granadas às organizações criminosas.